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Empresas e pesquisadores investem na macaúba para alavancar a produção brasileira de biodis

Versátil, a palmeira tem potencial de produção cinco vezes maior que o da soja


Macaúba

Macaúba

Nativa do cerrado, a macaúba (Acrocomia aculeata) é a nova aposta de especialistas e pesquisadores do setor de energia para alavancar a produção de biodiesel no país. Investimentos em pesquisas, conquistas científicas e plantações comerciais bancadas por capital estrangeiro, ainda que a passos lentos, começam a ocorrer com mais frequência no Brasil.

Em Lima Duarte, na Zona da Mata mineira, o plantio de 1,5 milhão de mudas da palmeira em viveiro é resultado de uma parceria entre investidores europeus e a Universidade Federal de Viçosa (UFV), na qual pesquisadores brasileiros desenvolveram a técnica de germinação da planta em laboratório. O objetivo é criar um complexo agroindustrial para a produção de óleo vegetal e coprodutos, tendo como matéria-prima principal o coco da macaúba.

O projeto em Lima Duarte foi criado pela Entaban Ecoenergéticas do Brasil, empresa do grupo espanhol Entaban, considerado o maior produtor de biodiesel da Europa, com capacidade instalada de processar 700 mil toneladas de óleo por ano. A meta é implantar 60 mil hectares de macaúba em Minas Gerais e no norte do Rio de Janeiro, em cinco módulos de 12 mil hectares. “Para cada módulo, será implantado uma usina de extração de óleo. O primeiro já está em andamento. Neste ano, vamos plantar 3 mil hectares da palmeira na Zona da Mata (mineira)”, explica o diretor da Entaban Brasil, Orlando Arruda.

Além da alta produtividade de óleo comparado ao de outras oleaginosas — em relação à soja, principal matéria-prima de óleo vegetal para biodiesel no Brasil atualmente, a variação de quilo de óleo por hectare pode quintuplicar —, a macaúba tem o potencial de produzir pelo menos outros cinco produtos (dois tipos de óleo, dois tipos de torta utilizada para ração animal e o carvão do endocarpo). “As pesquisas iniciais apontam potencial de produção variando de 2,5 mil a 6 mil quilos de óleo por hectare, dependendo do material genético, dos tratamentos silviculturais e da densidade de plantio. A produção da soja é de cerca de 500kg a 600kg de óleo vegetal por hectare”, compara o pesquisador da Embrapa Cerrados José Mauro Moreira.

Segundo o pesquisador, o mercado para aproveitamento da planta para produção de óleo vegetal está focado principalmente em Minas, no Pará e em Mato Grosso. No entanto, o óleo produzido é de alta acidez e não poderia ser inserido no processo de transesterificação (reação química em que o álcool do éster reagente é substituído por outro álcool), utilizado para converter o óleo vegetal em biodiesel sem um pré-tratamento. “A maioria dos óleos de alta acidez têm sido destinados às indústrias de sabão, cosméticos, asfalto e cerâmica”, explica Moreira.

Na Grande Belo Horizonte, em Jaboticatubas, uma empresa privada conseguiu desenvolver a produção do óleo vegetal de macaúba de baixa acidez. “Foram três anos de desenvolvido de processo e somos a única empresa a extrair o óleo de baixa acidez da polpa da macaúba. Até então, não existia um processo para extração do óleo de alta qualidade, em escala industrial”, revela o engenheiro e sócio-diretor da Paradigma Óleos Vegetais, Marcelo Araújo. A pesquisa envolveu a Embrapa, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia.

Renascimento

De acordo com o coordenador do Programa de Energia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes) de Minas Gerais, Marcelo Franco, a macaúba pode reativar o renascimento do programa do biodiesel no país. O primeiro passo, segundo ele, já foi dado, com o início da domesticação da palmeira, ou seja, com o desenvolvimento da técnica de germinação em laboratório por pesquisadores da UFV. “Era preciso romper com essa dormência da capacidade reprodutiva da macaúba”, afirma.

A germinação natural da semente da palmeira é pobre, alcançando no máximo 3%. A técnica desenvolvida na UFV consiste em um conjunto de sete tratamentos e eleva a taxa de germinação para 80%. “O produto dessa técnica é a semente pré-germinada, que tem potencial de estabelecimento superior a 90% em viveiro”, afirma o professor e pesquisador Sérgio Motoike. A técnica foi patenteada pela UFV, que assinou convênio de transferência de tecnologia e concedeu licença à Acrotech — empresa de produção de sementes de macaúba — para que pudesse utilizar comercialmente o processo, mediante recolhimento de royalties, o que foi feito com a Entaban Brasil.

“Várias universidades estão pesquisando o assunto. Há estudos que demonstram que o biodiesel da macaúba atende a todas as especificações, além de ser estável e de alta durabilidade”, diz o economista Francisco Augusto Oliveira, presidente da ONG Trem dos Macaubeiros, que reúne pesquisadores, empresários e governo para a formação de parceiras e trocas de informações sobre as potencialidades da palmeira. Segundo o professor Motoike, as pesquisas na UFV agora se direcionam para o desenvolvimento da primeira variedade de polinização aberta de macaúba. “É um projeto de oito anos, que busca produzir 8 milhões de sementes selecionadas, de qualidade genética conhecida. Estamos apenas aguardando recursos da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais)”, diz.

Avaliação

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A Petrobras Biocombustível afirma que avalia as potencialidades de diferentes oleaginosas e, em Minas, encontrou potencial na macaúba. A estatal, que mantém a usina de biodiesel Darcy Ribeiro, em Montes Claros, no norte do estado, explica que, na área industrial, uma das principais linhas de pesquisa é o desenvolvimento de tecnologia para a extração do óleo da palmeira. Em parceria com a Embrapa e outras instituições públicas de pesquisa, o trabalho é feito em duas frentes: com o processamento integral do coco da macaúba e com o aproveitamento dos diversos componentes do coco, incluindo a possibilidade de extração separada dos óleos da castanha e de palmiste, que têm qualidade superior.

Segundo o coordenador do Programa de Energia da Sectes, o governo de Minas deve construir uma estação experimental (unidade de pesquisa) da macaúba, mas é preciso também haver investimentos do setor privado. “A Entaban chegou para botar lenha na fogueira, nada melhor do que estimular a competição”, declara Franco. Para ele, o futuro promete. “Daqui a 20 anos, a macaúba será a cana-de- açúcar do Brasil no setor do óleo”, projeta o especialista. Segundo a Petrobras, o objetivo é alcançar a médio prazo resultados que viabilizem a utilização da macaúba para produção de biodiesel no país.

Fonte: Correio Braziliense - 24/03/2010


 
 

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